Artigo: As vantagens e os limites da liberdade infantil

Entrevista de Maria de Melo Azevedo a Graciela Karman


A educação atual exige dos pais e educadores uma postura muito mais flexível do grupo do que no passado. Nem rígida nem libertária. Só assim é possível formar indivíduos com senso crítico e capacidade de decisão.

 
Por que tanta preocupação, ultimamente, com relação à liberdade e seus limites na educação da criança?
 
Por que se trata de um problema atual, que vem se colocando de forma mais intensa, digamos, de uns 30 anos para cá. Até então, educar era tarefa mais fácil do que agora: os valores a serem transmitidos e as técnicas de educação eram mais estáveis e todas bem conhecidas. Os pais educavam como haviam sido educados, e não se perguntavam se estes valores e técnicas estavam realmente corretos. Eram assim e assunto encerrado. Sempre havia sido assim, ora essa... Se houvesse dúvidas sobre uma questão qualquer, era simples caso de esquecimento, e, portanto, bastava perguntar a alguém mais velho. A vantagem desse tipo de educação consistia em dar uma segurança muito grande ao educador. Não havia motivos para titubeios.
 
As verdades tinham mais força. Há alguns anos, quando os jovens começaram a questionar os mais velhos, a cobrar “o que foi que vocês fizeram com a gente?”, eles “caíram das nuvens”: “Como, o que fizemos? Tentamos não errar, fazer tudo certo, fomos educados assim e deu certo... por que então...”
 
 
Por que essa mudança relativamente brusca na educação?
 
Depois da Segunda Guerra, houve uma transformação muito intensa no mundo, e uma consequente quebra de valores. Os valores antigos já não serviam.. A educação anterior a esse período era eminentemente autoritária.
 
As pessoas, que ela formava, tendiam a ser mais “amarradas”; não estavam preocupadas em serem mais livres, mais espontâneas, em encontrar e desenvolver suas potencialidades (isto se reflete até na postura física e de vestuários, muito mais “presa”, mais formal do que a do jovem moderno). Era preciso primeiro saber ser obediente para depois saber mandar. Dar e receber ordens, e não questioná-las. Mas, de repente, as soluções antigas não serviam mais para um mundo muito transformado. Não bastava obedecer. Foi preciso encontrar soluções novas, pensar as coisas, questioná-las.
E as pessoas se viram sem instrumentos, despreparadas para um mundo assim, muito mais complexo e onde os problemas não estão equacionados. A cada momento, a pessoa passou a ser chamada a se reavaliar, a decidir. Tinha aprendido a obedecer e a mandar, mas agora a vida lhe pedia para optar. Hoje, uma adolescente de apenas 15 anos muito frequentemente é chamada a escolher diante de situações como virgindade e amor livre.
 
Há 20 anos isso raramente ocorria. A virgindade feminina era realmente a única possibilidade correta e inquestionável fora do casamento.
 
No entanto, a descoberta da liberdade na educação levou ao exagero oposto. Não se devia mais dizer não às crianças, não se podia pôr limites. O autoritarismo dos pais deu lugar a uma espécie de autoritarismo das crianças.
 

Mas entre uma educação rígida e outra de completa liberdade é preferível a segunda?

A proposta é de educação democrática e não de autoritarismo infantil. O perigo da educação antiga era produzir pessoas “encolhidas”, “cabisbaixas”, e o perigo da educação atual é produzir indivíduos de “nariz pro ar”. O indivíduo “encolhido e cabisbaixo” não sabe defender seu espaço pessoal, deixa-se invadir, desrespeitar. O indivíduo “nariz pro ar” não enxerga o outro à sua frente, não percebe suas necessidades, não toma conhecimento delas. O “encolhido” não se permite sequer um espaço próprio; o “nariz pro ar” toma o mundo inteiro para si, invade o outro, desrespeita-o.
 
Muitas vezes, “liberdade completa” tem sido erradamente entendida como um reforçar desta postura “nariz pro ar” na vida.
 
As duas posturas acarretam problemas. Uma mãe que dá “tudo” aos filhos – não tem um canto que seja apenas seu na casa, não tem um tempo para suas coisas, para sua vida profissional, pessoal etc – certamente cobrará toda essa “abnegação”. Claro, se a pessoa “engole sapo” o dia todo, vive com indigestão, existe mágoa e raiva não elaboradas, talvez mesmo, inconscientes.
Acho que qualquer filho ficaria melhor se recebesse menos, mas de uma mãe mais feliz, mais realizada. Afinal, sentir-se culpado pela vida infeliz da mãe é um peso para qualquer um.
 
Por outro lado, gente de “nariz pro ar” nem sequer vê o outro, e evidentemente não poderá nunca se relacionar bem com qualquer pessoa. A pergunta anterior (entre uma educação rígida e outra de completa liberdade é preferível a segunda?), portanto, está mal posta. A opção não está entre uma educação rígida e uma educação libertária. Não se trata de prender a criança entre quatro paredes, mas também não é o caso de deixá-la solta no espaço. É preciso pelo menos colocar alguns parâmetros, dar alguma orientação e então deixá-la construir o resto, exercitando-se na liberdade. Se o adulto não colocar limite algum (nunca dizer não, por exemplo) pode provocar uma situação de muita ansiedade para a criança. Nesse caso, o adulto não está assumindo seus papéis, e a própria criança se vê obrigada a colocar-se os limites. Se para o adulto já é complicado decidir o que é certo ou errado, bom ou mau, para si próprio, imagine então ter que tomar tais decisões, por exemplo, aos dois anos de idade. A criança teria que amadurecer antes do tempo.
 
Não é o caso de ficar o tempo todo martelando regras na cabeça, ou vigiá-la constantemente, mas também não é para deixá-la sozinha, sem interessar-se pelo que lhe acontece. Não é preciso sentar-se todos os dias com a criança para fazer lição de casa (neste caso, ela não teria nem oportunidade de aprender a ser responsável; os erros e fracassos também são muito importantes). Mas é bom, de vez em quando, perguntar-lhe se há qualquer problema; verificar se as lições de casa estão sendo feitas, para que perceba que estudar é um valor importante e que seus pais estão interessados, e acompanham sua vida escolar. Não é preciso estar todos os dias à porta da escola, para perguntar à professora como vai indo o filho. Mas, certamente, é preciso ter algum contato com a escola para estar informado das dificuldades, fracassos e sucessos da criança.
 
Tomando como exemplo uma criança que começa a andar: se o adulto não agüenta vê-la desequilibrar-se e cair, e a ampara o tempo todo, nega-lhe a oportunidade única de experimentar seu desequilíbrio – indispensável para que construa seu equilíbrio –, de enfrentar o próprio medo na aventura de estar de pé sozinha. Mas é claro que o adulto não pode simplesmente soltá-la: é ele quem tem que cuidar de que a criança não se exponha a situações realmente perigosas, com as quais não tem condições de lidar. A atitude do adulto neste tipo de trabalho educacional é comparável ao trabalho da parteira: trata-se de deixar a criança nascer, respeitando o ritmo natural do parto. Mas é preciso também estar sempre muito atento para ter condições de discernir os momentos em que se torna necessário uma intervenção – respeitando o ritmo da criança, dando-lhe oportunidade de ser co-autora de seu nascimento. É bom ressaltar que isto nada tem a ver com desinteresse e ausência; ao contrário, é preciso estar sempre atento, sempre bem informado, preparado para intervir adequadamente, quando necessário.
 
 
Como saber exatamente quando e em que medida são benéficas essas intervenções?

Entre os animais, isso é simples: estão biologicamente preparados para reconhecer o momento certo e o quanto de liberdade se precisa das aos filhotes. Konrad Lorenz, por exemplo, fala de como, chegado o momento dos filhotes dos pássaros voarem, as mães destroem o ninho caso se recusem a sair. E na queda, os passarinhos voam. Instintivamente, as mães reconhecem o momento da prontidão para voar. Caso o filho não tente o vôo naquele momento da vida, é muito provável que jamais consiga voar. Mas com gente é diferente; com gente, encontra-se de tudo: criança de dois anos tendo que se cuidar sozinha e mães com filhos de 40 anos ainda se perguntando se está na hora de soltar o rapaz. Isso porque, o que falta ao ser humano em instinto, precisa ser compensado com recursos – recursos próprios do homem.
 
 
Que recursos são esses?
 
Por exemplo, dialogar. Diálogo é uma conversa em que duas pessoas conseguem dizer o que pensam e o que sentem. Num diálogo, as pessoas estão se expressando e também ouvindo o que o outro expressa. Quem entra numa conversa só para falar ou só para ouvir não está dialogando.
Outro recurso é observar. Embora muito importante, a linguagem verbal não é a única forma de expressão humana. Observar significa estar atento para todas as formas de comunicação. Se alguém afirma que é feliz, mas sua expressão facial, sua postura, seus gestos, seu comportamento o negam, está acontecendo algo errado.
Importante também é informar-se. Devido à complexidade da sociedade atual, acho difícil conseguir educar bem sem um mínimo de preparação. Se os pais sabem que a birra dos dois anos de idade é um fenômeno freqüente do desenvolvimento e conseguem entender seu significado, sentem-se mais tranqüilos e fica mais fácil intervir. Se, pelo contrário, não dão o peso devido às birras, deixam que o problema se avolume, ou interpretam simplesmente como “mau gênio” da criança, a situação pode até vir a ser o início de um problema de relacionamento entre eles e a criança.
Outro recurso é a informação, que permita aos pais de adolescentes se situarem corretamente ante o conflito que vivem com os filhos. Não se trata apenas de rotular a situação como “conflito de gerações”, mas sim de obter uma série de dados que lhes permitam pôr os pés no chão, para entender a si próprios e aos filhos dentro da situação.
Atualmente, uma boa literatura fornece essa espécie de informação a pais e educadores. As próprias escolas também já incluem quase normalmente em suas programações esse tipo de serviço com conferências, debates, reuniões de pais e mestres etc.
 
 
O ideal seria que pais e filhos resolvessem a questão dos limites praticamente em pé de igualdade?
 
Não exatamente. Tem que existir liderança. Só que, nos dias de hoje, em que a sociedade moderna pede indivíduos com capacidade de escolha, de decisão, com sentido crítico, é preferível uma liderança democrática. O que muda, fundamentalmente, nesse tipo de liderança, é a postura do educador. Ele não é mais o dono da verdade, autoridade inflexível e imutável que ninguém ousa contestar, como antigamente se pensava. É apenas um ser humano, e como tal, pode se enganar – atitude que nada tem a ver com displicência, irresponsabilidade ou incompetência. Reconhecer a possibilidade de erro leva a pessoa a ser menos onipotente, mais cuidadosa, aumentando a probabilidade de acerto.
O líder que sabe repartir autoridade, repartirá necessariamente responsabilidade. Como todos participaram da decisão estão em condições de assumir, cada um, sua parcela de responsabilidade.Todos poderão aprender com os sucessos e os erros, crescendo juntos.
 
Esta é a postura típica do líder democrático: aceita que ainda possa crescer, educa-se junto com o educando.
Voltando à pergunta, a colocação de que pais e filhos poderiam resolver a questão dos limites em pé de igualdade, deixa a impressão de que a liderança desapareceria.
 
Educação democrática não é ausência de liderança.
Nega-se autoritarismo prepotente de antigamente mas não autoridade em si.
Muda apenas a postura do líder. Ele não se coloca como o único capaz de pensar e decidir. Reconhece os demais como seres pensantes e responsáveis.
Sua função, no entanto, é imprescindível.
Se apenas a vontade do jovem entra no conteúdo das decisões familiares, ocorre uma inversão de valores: passa-se da prepotência de antigamente a uma situação de ausência, moleza e permissividade.
Em suma, estabelecer limites é fundamentalmente função dos pais.
Mas, na medida em que a criança for se desenvolvendo e criando ela própria condições de assumir responsabilidades, o importante é que os pais lhe confiem parcelas cada vez maiores dessas responsabilidades.
 

Texto publicado na revista Psicologia Atual.


"Maria de Melo Azevedo é psicóloga (CRP 06/1114) formada pela USP e psicoterapeuta reichiana, com mais de trinta anos de experiência em clínica individual e grupo."
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