Maria de Melo

Artigo: Assumir-se, parar em pé



Assumir-se, parar em pé


Maria de Melo


Todas as filosofias do crescimento pessoal penso que concordam num ponto: a gente só cresce quando é capaz de parar em pé sobre as próprias pernas. Quem não está de pé sobre as suas pernas, está dependurado.

Dependurado numa pessoa, numa ideologia, numa ilusão, numa terapia. É uma situação incômoda. O outro pode ir embora, a ilusão se desvanecer e você se esborracha no chão. Viver dependendo, sem pernas próprias, é no fim muito doloroso. Especialmente nos tempos de grandes crises, quando o chão treme um pouco para todo mundo. Você está muito bem no colo de alguém ou de uma situação. Mas se, de repente, alguém grita Incêndio!, você nunca sabe se a pessoa que o segura vai jogar você no chão e sair correndo, se salvar. Nas crises mais do que nunca se descobre o quanto é essencial estar sobre as próprias pernas.

Mesmo assim, ficar no colo parece que é uma velha tentação do ser humano. Vamos analisar um pouco como isso começa. Porque estar no colo nem sempre é perigoso. Para a criança, estar no colo, ser dependente, é normal e saudável. No útero ela está extremamente dependente e em perfeita integridade com essa situação. Mas é bom lembrar também que nem no útero o nenê é inteiramente dependente. Ele precisa fazer os movimentos dele para sobreviver. Ele já tem o seu princípio de vida que o faz se grudar na placenta, senão morre. Quando estava grávida, durante a noite eu deitava em cima da barriga e o nenê logo reagia, chutava até eu acordar e trocar de posição. Ele já sabia brigar pela sua vida.

A partir do nascimento, esse lutar pelas suas coisas começa a ficar gradativamente maior. Essa independência é bom que não seja forçada. (Certa mania atual de querer que o filho cresça logo – fale rápido, ande rápido. Os mesmos pais que, depois, quando o filho tem dezoito anos, querem à força amarrá-lo em casa.) Mas é muito saudável que a criança goze plenamente a sua dependência na época em que é natural. Que nessa época ela seja generosamente suprida em suas necessidades – de leite, de atenção, de afeto.

Quando é nenê não precisa mesmo das pernas. Vive naturalmente dependurado no seio da mãe. E é bom lembrar que essa mãe também está dependurada nele. A mãe tem necessidade dessa criança, até fisiologicamente – se não der de mamar, o seio dói. Corre uma energia incrível entre os dois.

Como mãe eu posso garantir que essa relação simbiótica é altamente gratificante e energetizante para os dois. E é exatamente a vivência dessa relação inteira que vai dar suprimentos físicos e afetivos para que a criança, sentindo-se segura e não ameaçada, tenha energia própria para trilhar seus próprios caminhos.

Bem suprida na sua fase de colo, a criança aos poucos não é mais um ser inteiramente oral (de satisfações orais) e sua energia começa a se deslocar para baixo, para os intestinos, e vive, então, a fase anal e depois a genital. Assim, gradativamente, ela começa a ficar em pé, a experimentar as próprias pernas, mas ainda precisa do referencial da mãe. A criança já brinca sozinha desde que sinta a mãe por perto, na retaguarda. É um lento e belo processo. A gente poderia resumir dizendo que a primeira fonte de energia da criança é o cordão umbilical. Lentamente ela vai se libertando desse cordão e passa a ter uma alimentação energética através das próprias pernas, ligada diretamente à mãe-terra. E educar um filho é torná-lo capaz de viver por si mesmo, numa postura confiante em seu contato com a mãe-terra. A terra nunca falta a quem se sente seguro sobre as próprias pernas.
 
Mas essa confiança é mais complicada para pessoas que não foram adequadamente supridas em seu início de vida. Elas guardam em sua personalidade algumas das características do bebê. Suas necessidades básicas não foram supridas e elas vão em frente com um buraco aqui, outro ali, com uma enorme sensação de privação. Elas inconscientemente se recusam a crescer, como que esperando pelo que tinham direito e não receberam. É o adulto que vive achando que o mundo todo, o tempo inteiro, deve alguma coisa para ele. Ele acha, por exemplo, que deveria ter emprego, não que
deveria buscar emprego. Que as coisas de que precisa deveriam vir até ele. Porque ele tem direito de ser cuidado.

Ora, isso só é lógico para um bebê. Para um adulto não tem sentido. Agora é o único responsável pela sua vida. A mãe que ele não teve, não teve. Inclusive ele idealiza muito a mãe. Imagina-a muito maior, mais perfeita do que a mãe possível. Alguém que está sempre ali, só para ele.
 
Este adulto é uma pessoa em geral extremamente crítica, exigente, reivindicativa. Revela-se ótimo na oposição, porque, na hora de construir alguma coisa, tem atitudes de bebê. Porque o bebê não precisa construir nada, é mesmo um ser em potencial. Já para o adulto não basta ter potencialidade. O adulto precisa realizar, mostrar. E é difícil para este tipo de adulto entrar em contato com a sua falha básica. Porque ele realmente tem um buraco real em sua personalidade, o que se reflete inclusive em sua postura física: pernas frágeis, às vezes mais finas embaixo do que em cima, pouco energetizadas; às vezes grossas, mas não fortes. Pode ter acúmulo de gordura ou de água nas pernas, ou então uma hiper-rigidez nos músculos, que assim perdem a flexibilidade. O peito entrado para dentro revela as dificuldades de acreditar em si, no fato de que pode colocar o peito pra frente e dizer: eu sou, eu acho.

Essa frágil postura vem muito de uma relação precária com a mãe. De sentir o coração pouco nutrido, de uma carência afetiva muito grande. Não é fácil lidar com estas pessoas, porque elas têm um constante sentido de reivindicação, um enorme senso de justiça forte mas irreal. Foram injustiçadas em direitos básicos e agora têm muita dificuldade para entrar em contato com a realidade, que também nem sempre é justa, nem sempre é mãe. A realidade em si não tem que parecer justa ou injusta. A gente é que tem de aprender a lidar com ela e a transformá-la. Mas esse tipo de pessoa tem muita dificuldade em se admitir um possível agente de transformação e prefere esperar que alguém venha e resolva as coisas por ela. É típico da criança pedir que alguém faça por ela. E no mundo em que se vive é complicado isso de ficar esperando emprego, dinheiro, a justiça. Esta pessoa precisa se fortalecer e sair a batalhar o que precisa, as coisas não vêm mais sozinhas. Aliás, essas pessoas em geral têm braços pouco energetizados e dificuldade de ir em busca daquilo que
querem. Funcionam muito na cabeça. A cabeça vive a mil. A imaginação suprindo a dificuldade de realização. Geralmente têm os ombros muito tensos, erguidos por tensões crônicas, revelando uma pessoa dependurada: como se a energia estivesse subindo toda para frente e ela ainda estivesse ligada à vida pela boca, como na fase oral. Freqüentemente falam muito, têm um acúmulo energético na zona oral muito grande.
 
São também pessoas que oscilam muito entre a depressão e a euforia. Na euforia, acreditam em suas ilusões todas – que são boas, poderosas, cheias de capacidades. E, nessa fase, conseguem bons princípios de relação. Mas, como não têm os pés na terra – são irreais desejando muito o que não precisam ou o que não é possível – suas relações e realizações não duram muito. Aí entram em depressão. Um momento difícil, capaz de levar a suicídios. É o contato com a realidade, a desilusão, a queda das nuvens. Na verdade, eles estão quase sempre entre as nuvens ou no fundo do buraco, raramente no meio, que é o chão, único lugar para integrar o desejo com o
possível.
 
Daí também a grande dificuldade que essas pessoas têm para conseguir realizações duradouras tanto no campo afetivo como profissional.

Porque têm pouca energia para buscar, buscam de uma forma irreal e são muito exigentes. Exigem muito e não estão dispostos a dar nada em troca, como o bebê. Preferem ficar no colo, que o outro os tornem seguros. Mas quem está no colo apenas recebendo, e não nas próprias pernas, trocando, se sente muito inseguro nas relações. Sabe que o outro, a qualquer momento, pode jogá-lo fora. E isso resulta em relações muito carregadas de ódio. Um ódio claro ou enrustido, mas sempre presente. Pois se trata de relação de dependência. Quem segura alguém no colo também fica dependente da sua carga. O adulto precisa é de companheiros ao seu lado, cada um nas suas pernas e trocando coisas. A relação onde um tem que carregar o outro é sempre minada por raivas mútuas, cobranças mútuas. Um está sempre devendo para o outro, carregando ou sendo carregado.
 
A pessoa lesada em suas carências básicas está, na verdade, sempre à procura da mãe. No namorado, no patrão, nas instituições sociais, na pátria, na terapia. O próprio terapeuta muitas vezes tem que dizer: “Olha, eu não sou sua mãe. É você que é responsável por você. Suas pernas têm que levar você na vida, não as minhas”. É duro para ele ouvir isso. Na verdade ele tem as pernas fracas, dificuldade de partir por conta própria em busca das coisas. São pessoas que tendem muito à inveja, inveja de quem consegue.
 
Há um outro jeito de não estar sobre as próprias pernas. Antes, vamos imaginar uma pessoa que está em pé. Essa pessoa se mantém bem fixa no chão, ereta, de forma que a energia flua facilmente por ela, realimentando-a com a energia da terra. Ela como que se revitaliza através daquilo que faz.

Suas realizações são mais objetivas, mais revigorantes, dão mais certo. Uma forma de não estar em pé é a que vínhamos descrevendo antes: as pernas fracas, o peito para dentro, braços pendidos. É o que Reich chama um tipo oral, fruto de carências básicas na fase oral de sua vida. Mas existem outras formas de não estar em pé: por exemplo, a pessoa que coloca um monte de obrigações nas costas, fica curvada, caída para frente, as pernas rígidas. É outra forma de carência afetiva básica. Só que, enquanto o outro é fraco, não pode nada, este pode tudo. É o onipotente. Ele também não teve uma troca afetiva boa quando pequeno: a mãe não estava ausente, estava presente e dava amor, só que um amor condicional: “Eu te amo só se você for bonzinho, fizer tudo o que eu quero, se você for meu, aceitar meus projetos e renunciar à sua independência”. Essa pessoa cresce tendo que lutar muito pelas suas relações.
 
Amor, só amor merecido, conquistado, jogo. Tem que carregar um bonde para
que os outros gostem dele.

Vai ficando até meio corcunda nas costas, os ombros largos, como se a sua energia toda parasse ali. Tem realmente um peso nas costas. E também sente muita dificuldade, em sua onipotência, de entrar em contato com a realidade. Tem mais força que o outro tipo, o oral. Mas, na verdade, não se dá conta de que está carregando muito mais do que pode agüentar. Vive curvado, renunciando a muita alegria, a estar inteiro. Só agüenta carregar demais à custa da sua vida, da sua saúde, de tensões enormes em seu próprio corpo. Precisa aprender a humildade de dizer: “olha, isso eu não agüento”. Se preciso, como as mulas. Se você carrega demais um animal saudável, ele simplesmente dobra os joelhos, admite que não agüenta.

Mas estas pessoas acham que devem agüentar tudo, porque, de certa forma, estão “condenadas” a serem bem sucedidas. Então, para agüentar as cargas pesadas que vão topando pela vida, elas como que reforçam as pernas com ripas nos joelhos, e não dobram nunca. Arrebentam a coluna, ficam com dor nas costas, mas se negam a perceber a própria dor, o próprio cansaço, suas limitações. Vão tocando a vida como uma máquina que tudo encara. Têm que provar coisas para serem amadas. Vivem com a pele verde de cansaço, com ameaça de enfarto, de câncer, com a ilusão de que agüentam. Até que estouram. Estouram a coluna, a vida afetiva. Essa onipotência forçada é outra forma de não estar em pé.

Felizmente, eu tenho observado que há cada vez mais pessoas tentando ficar em pé pelas suas próprias pernas. Talvez seja, um pouco, efeito da própria crise. Colos que antes seguravam agora não seguram mais. Boa hora para começar a andar por si mesmo. Mas é uma luta enorme. Parar em pé parece tão simples e é uma luta, às vezes, muito dolorida, cheia de preços, mas extremamente compensadora. Os que começam vão em frente, cada vez com mais força. Nada se compara à alegria de estar de pé.

Há preços, medos. O medo de perder o colo e ficar sem ninguém. Quem tem pouca perna fica com medo de não ter definitivamente quem cuide dele. E há pessoas que até já estão sobre suas pernas e têm medo disso, fingem que não estão. Como a história do sujeito que planta o milho, colhe, faz a farinha, o bolo e, depois que está tudo pronto, põe a colher na mão do outro e diz: “Dá na minha boca”. E ainda acrescenta: “Ah, como eu dependo de você”. Por medo de perceber que já está nas próprias pernas. Esse medo vem muito do medo de ficar só. De ter que largar certas ilusões. Perder pessoas que pensa que tem. De perceber, por exemplo, que o marido não é de fato um bom marido. Ou talvez até seria se não tivesse que ser mãe também.

São momentos de transição muito difíceis. Quando alguém pára sobre as próprias pernas, seus referenciais mudam e o risco é maior. Uma relação de dependência mútua, é, por exemplo, uma coisa triste. É como um salário mínimo de afeto. Pouco, mas garantido. Porque, na verdade, o outro depende tanto de você como você dele. Ele também não tem pernas, e como é que um aleijado pode ir embora? Quando ambos estão sobre suas pernas, a relação não tem garantias. Cada um pode ir embora à hora que quer. Se fica é porque quer, é porque está feliz ali. Isso muda tudo.
 
Mas não é fácil. As pessoas muitas vezes começam uma terapia morrendo de medo: “se eu cresço, meu marido me abandona: tenho que ser dependente para ser amada”. Ou então a pessoa vence este medo e cai em outro: “se eu cresço, eu vou querer abandonar o meu companheiro, se ele ficar na mesma sem desejo ou possibilidade de crescer junto”. E aí pode haver mesmo um grande desequilíbrio na relação.
Ficar sobre as próprias pernas significa, portanto, poder fazer opção.
 
E, portanto, perder coisas, situações. E perder coisas boas, porque as opções difíceis são entre coisas boas.
 
Uma outra dificuldade é que, quando você pára de reclamar – “mamãe não faz nada por mim, a vida não me dá nada” – você começa a se sentir responsável pelo seu próprio caminho. Você fica só com você, não tem mais a quem culpar. Você agora é dono do seu sucesso e do seu fracasso. Não é fácil, na vida, perder nossos culpados.
 
A luta por assumir-se está cheia de armadilhas. Esses dias eu estava fazendo um trabalho terapêutico numa pessoa cuja atividade perante a vida é muito a de estar sempre caído, desanimado, sem forças. Uma atitude oral, de quem teve uma privação grande nos primeiros anos de vida. Então eu pedi a ela que expressasse corporalmente esta atitude e ela ficou realmente dobrada sobre si mesma, desmontada no chão. Como que sem coluna. A coluna desmontou (e a coluna tem muita ligação com as pernas: se você está nas suas pernas, está na sua coluna também). Aí eu lhe pedi que fosse saindo daquela posição.

Mas este exercício não é apenas sair da posição. É ir saindo devagar, tomando consciência de cada passo, de cada sentimento que ocorre nesta caminhada na direção do se assumir, na direção da saúde. Ao tentar se levantar, os sentimentos que este paciente ia expressando eram de muita depressão e desvalorização, ao mesmo tempo em que culpava os outros pelo seu triste estado. Na infância, culpava pai e mãe. Na adolescência, outras pessoas. E ele, de fato, teve uma vida muito difícil, muito massacrada e carente.
 
Bem, mas o fato é que, no exercício, chegou um ponto em que ele estava quase de pé – quase saudável e responsável por si mesmo. Mais um passo e estaria na atitude da pessoa assumida e feliz. E qual era o seu sentimento de que, se ele fosse feliz, perderia a grande arma que tinha contra as pessoas que o tinham feito infeliz.
 
Fracassado, deprimido, ele era a prova viva do fracasso da mãe, do pai, de todos os outros. Parar em pé, no seu caso, era também renunciar ao ódio, agüentar perdoar. E levamos semanas, meses nesse pedaço. Não era fácil, mesmo porque, em certo sentido, era o ódio que lhe dava força para tocar um pouco a vida. Uma força precária, que logo murchava.
Mas o fato é que, na passagem para a saúde, ele sabia que ia perder muita coisa. Perdia aquela posição de coitado, que já era o seu meio de vida. E ia ter de suportar uma mãe muito egoísta, dizendo quem sabe: “Viu, meu filho, como você deu certo, como eu fui boa mãe?”. Ele tinha, enfim, que elaborar muitos sentimentos antes de optar pela saúde.

Parar em pé tem, portanto, momentos difíceis. Momentos de solidão. Porque antes você podia estar muito complicado, mas tinha muita gente ao seu redor, muito barulho, você acusando, sendo acusado. E, quando você se cansa de ficar ali, batendo boca com os outros e com você mesmo, e toma suas decisões e não responsabiliza mais ninguém – aí vai perceber certa solidão. Não é falta de amor, que amor não quer dizer dependência mútua.

Pelo contrário, você está melhor, é mais procurado, mais amado, há mais relação de troca, você não está mais dependurado nos outros. Mas a solidão de estar nas próprias pernas é saber que as grandes decisões da sua vida agora são com você mesmo. E aí você começa a descobrir a relatividade das coisas, inclusive da própria terapia. A terapia não é a grande mãe dando na boquinha soluções existenciais. Isso não quer dizer que a terapia não seja útil, não implique na presença de um companheiro com quem se pode conversar, que oferece certos instrumentos ricos. Mas ela não decide, quem decide é você.

Num primeiro momento, o paciente esperneia porque o terapeuta se recusa a tomar decisões por ele. Exatamente como uma criança faria. Se a terapia progride ele já não esperneia, não grita. Pode sentir, isso sim, a dor da solidão. A solidão do adulto que já não tem alguém maior para perguntar como é que se faz. Ele pode até trocar informações com os mais experientes.

Mas não do tipo “se eu fico enroscado, alguém vem e me salva”. Ou a sensação infantil de que, na dúvida, o papai e a mamãe sabem. Assumir-se é descobrir que a gente já está do tamanho do papai e da mamãe. O preço desta descoberta é uma certa solidão. A meu ver, mais rica e mais feliz que todas as dependências. Mas é uma solidão.

A capacidade de parar em pé como ser adulto, criativo e capaz de trocas, está, como vimos, muito ligada à forma como foram resolvidos os primeiros anos de vida. Tanto a mãe intranqüila, que quer que o filho cresça antes da hora, sem tempo de curtir sua infância direito, como a mãe desatenta e desamorosa, deixam suas marcas no adulto. Um pouco dessas marcas quase todos nós temos, em maior ou menor dose. Mãe ideal não existe e sempre ficam umas falhas. O que descrevi até agora são dois tipos particularmente marcados em seu desenvolvimento. O de pernas fracas, peito para dentro, ego fraco, que vive tudo na cabeça e não parte com objetividade para a concretização dos seus desejos. Seu prognóstico, em terapia, é no entanto, animador. Na medida em que ele é confrontado com a realidade, em que tem uma relação terapêutica ao mesmo tempo compreensiva e pé no chão, consegue progressos sensíveis. Um trabalho corporal também ajuda bastante, pois leva a tomar mais consciência corporal de si mesmo e fortalecer-se muscularmente, já que a fragilidade de corpo e de ego estão muito ligadas.

Com o tipo de costas largas e pernas rígidas, sempre disposto a agüentar tudo para ser amado ou bem sucedido, a terapia oferece outros desafios. Porque ele é o tipo da pessoa que de fato agüenta muito, e mais dificilmente sente a necessidade de mudar e de pedir ajuda. Corre até o risco de passar a vida agüentando. Em todo o caso, quero deixar claro que estas marcas de infância, que em maior ou menor grau todos nós trazemos, não têm um caráter de fatalidade a ser carregado pelo resto da vida.

E não é só em psicoterapia que estas marcas poderão ser tratadas. Na medida
em que a pessoa se dá conta delas e se põe a refletir e a trabalhar suas limitações, pode experimentar um crescimento compensador. O caminho cada um escolhe dentro das suas possibilidades. O importante é esta clara disposição de se olhar e de se trabalhar.
 
Texto publicado na revista
Psicologia e Comportamento,
jul/ago/MCMLXXXIV.

"Maria de Melo Azevedo é psicóloga (CRP 06/1114) formada pela USP e psicoterapeuta reichiana, com mais de trinta anos de experiência em clínica individual e grupo."

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O sertão é o mundo e o mundo é o sertão se buscarmos o nosso cerne; somos a humanidade, uma só alma.
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